Uma ‘Nova Esperança’ para a Vila da Baixa da Banheira

No passado dia 12 de agosto ( 2016), a equipa BXB-TV visitou as instalações do “Nova Esperança – Grupo de Apoio Fraterno da Paróquia da Baixa da Banheira”, a fim de conhecer melhor este grupo sócio-caritivo formado por leigos em regime de voluntariado, que funciona na nossa Vila desde 2006, sob a orientação da Paróquia da Baixa da Banheira. Num clima de conversa informal, falamos com “A” – uma das coordenadoras deste grupo, que pediu para permanecer anónima porque, segundo nos disse: “O que uma mão dá, a outra não precisa saber”.

Entrevistadora (E): Para quem não o conhece, o que é o grupo “Nova Esperança”? Anónima (A): O Grupo “Nova Esperança” é um grupo que pertence à Paróquia da Baixa da Banheira, e que foi criado há aproximadamente 10 anos da fusão de dois grupos que já existiam na paróquia –  “O Projeto Esperança” e o “Grupo de Apoio Fraterno.”

O Projeto Esperança tinha já uma caminhada de há alguns anos no trabalho de ajuda aos mais necessitados e o Apoio Fraterno fazia a visita aos doentes com cuidados continuados em fase terminal, para dar uma palavra de conforto e fazer um pouco de companhia. Numa troca de experiências, deu-se inicio às primeiras reuniões e achou-se por bem formar um só grupo o” NOVA ESPERANÇA-GRUPO DE APOIO FRATERNO”, numa missão social e caritativa partilhando o mesmo espirito de serviço a quem mais precisa.

A Nova Esperança, neste tempo de existência, tentou sempre ser uma força de ação na ajuda ao próximo. E neste ajudar o próximo, as situações que vão aparecendo são aquelas que tentamos resolver, sejam elas quais forem. Não só a nível de alimentação, como tudo o resto. Ajudamos – ou tentamos ajudar – a pessoa a tornar-se autónoma. Quando as portas se começam a fechar, chega o desânimo, e é aí que nós entramos para tentar encorajar, através de um acompanhamento muito pessoal e de proximidade, sem no entanto impor a nossa presença. Quando conhecemos as dificuldades das famílias e ganhamos a sua confiança, tudo fica mais fácil, podendo assim dar a ajuda precisa, ou fazer o encaminhamento para os organismos competentes. Trabalhamos em rede com vários organismos da Baixa da Banheira porque é essencial que a pessoa se anime e se sinta mais segura nesse acompanhamento, e capaz de procurar a sua autonomia.

Este apoio não pode ser um apoio eterno. É por isso que este apoio começa por ser de seis meses. Ao fim dos quais se faz uma reavaliação à família, para ver se progrediu.

E:. Pode-me falar agora um pouco acerca da história deste grupo, e de como começou aqui na Baixa da Banheira?
A: O grupo começou pelas necessidades que existiam… A nossa Paróquia sempre ajudou os mais necessitados, embora o fizesse no silêncio como Jesus ensinou. As pessoas até podem não ter fé, mas quando chegam aquelas alturas muito complicadas há sempre aquela ideia de que “ali, talvez me possam ajudar. Há 15 anos, havia o grupo de jovens – que era o”Projeto Esperança” – que trabalhava ao sábado numa casinha na Rua 25 de Abril. Como o grupo estava cada vez mais pequeno pelos afazeres dos jovens, acabamos por nos juntar. Deixou de ser o “Projeto “Esperança”, para ser o “Nova Esperança” –. Uns faziam a parte das visitas aos doentes, outros entregavam os alimentos ao sábado. E foi mesmo aí que tudo isto começou. Faziam-se peditórios na praça, em supermercados, pelas ruas da vila da Baixa da Banheira para se pagarem dívidas de renda de casa, óculos, eletricidade e água etc … – Apesar de não ser natural da Baixa da Banheira, esta terra já é minha, e nunca encontrei gente mais generosa quando vê a necessidade do outro. – Voltando ao grupo, já lá vão 10 anos e o grupo mantem-se a funcionar, e tem crescido a vários níveis, novas instalações, formações para melhor atendimento, com a ajuda de vários organismos como a Caritas, o Banco Alimentar, Comunidade Vida e Paz, os Frades Capuchinhos que têm passando por esta Paróquia e que muito têm feito por esta terra que nunca podemos esquecer.

E: Atualmente, quem compõe o grupo “Nova Esperança” e quais são as instituições com as quais colaboram? A: A Segurança Social com o programa FEAC “PROGRAMA COMUNITÁRIO DE AJUDA ALIMENTAR”, o Banco Alimentar, a Cáritas Diocesana de Setúbal, o Banco de Bens Doados “ENTRAJUDA”, a União de Freguesias da Baixa da Banheira e Vale da Amoreira e a Câmara municipal da Moita. O apoio da Junta de Freguesia é muito importante. São eles que vão buscar todas as semanas os alimentos ao Banco Alimentar. Temos muita gratidão, porque sem eles seria impossível manter o funcionamento.

E: O Grupo “Nova Esperança” funciona apenas em regime de voluntariado? A: Sim, todos.

E: E qual é, mais ou menos, a dimensão do grupo? A: Somos à volta de trinta, variando a assiduidade de acordo com a disponibilidade de cada um. Maioritariamente os nossos voluntários têm, mais ou menos, uma idade “madura”, digamos assim. [risos]

E: Quais são os tipos de apoios que fornecem à população?A: Um pouco de tudo. Desde alimentos, calçado, roupa, serviços de apoio ao estudo, cabeleireira, massagista, e enfermagem, e depois o facto de termos conhecimento de quem os pode ajudar. Trabalhamos em rede, e isso é muito importante. Temos reuniões semestrais e anuais para nos reunirmos com todos os organismos da zona, sobre a coordenação da camara municipal da Moita – porque estamos inseridos nos grupos de ajuda à comunidade. Essas reuniões são importantes porque nos vão dando as indicações de para onde encaminhar cada situação. Sabemos que a Junta de Freguesia tem uma advogada que dá orientações, que temos psicólogo no Centro de Saúde que nos pode ajudar, etc. Normalmente nessa reunião estão elementos da CM Moita, da Segurança Social, do Banco Alimentar… Isto é, de vários organismos que nos vão indicando a melhor maneira de lidar com a situação e encaminhar para o sítio correto.

E: Se possível, pedia-lhe agora que me falasse um pouco de como as coisas acontecem aqui dentro. A partir do momento em que alguém bate à porta, o que é que acontece? A: Funcionamos assim: Quando a pessoa vem, é atendida por quem faz o acolhimento (isto é, quem abre a porta…), aguarda um pouco na sala de espera e depois é atendido por alguém que tenta perceber a situação, porque isso nem sempre se consegue numa primeira abordagem… Depois é-lhe pedida a documentação necessária para se fazer um levantamento da situação – e para dar essa informação ao Banco Alimentar, Segurança Social, etc. Se virmos que a situação está muito complicada, é entregue à família o chamado “Cabaz de Emergência”; se virmos que a pessoa ainda se está a conseguir sustentar, ou tem família que pode ajudar, aguardamos a documentação e a visita à residência. Consoante o caso, agimos. Tem de se fazer um pouco de esforço para tentar compreender o que há para trás, o que nem sempre é fácil, porque não há ainda o à vontade para falar.

A partir – da entrega da documentação – faz-se uma inscrição e um relatório. Normalmente há uma segunda “entrevista” – vamos chamar-lhe assim – e ai pessoa já vem mais calma, já conhece o local, e fica um pouco mais descontraída. Nessa altura faz-se um relatório e dá-se uma senha, que lhe dá direito a levantar os perecíveis todas as quartas-feiras e um cabaz mensal.

Antes disto, ainda é feito o levantamento da situação com a visita a casa, para confirmar a morada. Depois do segundo grupo fazer a visita – porque não é o mesmo grupo que atende que vai a casa – faz-se a análise final. Só aí é que se decide se a família é apoiada ou não. A informação vai toda por carta, com a indicação de que este apoio é dado por seis meses. A partir daí, a situação é analisada mensalmente e ao final dos seis meses são pedidos novamente os documentos dos rendimentos e das despesas e feita uma reavaliação.

E: Quais são as razões que podem levar uma família – ou individuo – a não ser aceite pelo “Nova Esperança”?
A: Se tiver rendimento acima do valor per- capita que nos é exigido pelo Banco Alimentar e pela Segurança Social.

E: Existem condições que são pedidas ás famílias para cumprir? A: Sim. Procurar trabalho, essencialmente. Tem de ir periodicamente ao Centro de Emprego procurar, e fornecemos a indicação de vários sítios – mesmo que de trabalho temporário – onde se podem deslocar para se inscrever.

E: Como lidam com os casos “mais complicados”? A: Lida-se, como se fossem filhos. Para mim são filhos… É o que Deus me diz no coração. Como é que nós lidamos com os nossos filhos? Às vezes zango-me com eles! Mas como se fosse mãe. E às vezes digo-lhes: “Desculpe estar a dizer-lhe isto…” e digo exatamente como se fosse com um filho meu, se a situação fosse a mesma.

E: Há quantos anos é que faz este trabalho?
A: Quinze.

E: Como é acompanhar estes processos durante quinze anos?
A: É como uma paixão, eu não sei viver sem isto. Por vezes as pessoas dizem-me: “mas não recebe nada!”. Eu recebo tanto, que por vezes nem tenho palavras! Ao fim do dia, eu posso até chegar a casa e não ter tempo de fazer comida e ter só um resto de sopa de outro dia para comer, mas o facto de saber que as pessoas – e algumas chegam com muita fome – tem algo para comer, é uma coisa que me dá muita satisfação. Ninguém me deve nada! Eu digo sempre isto. Pelo contrário. Eu gostava que ninguém precisasse, mas já que precisam – e se eu puder ajudar – eu faço com muito, mas muito gosto. Enquanto estou à frente destas pessoas o meu pensamento é sempre: “Como é que eu vou ajudar?”.

E: Na sua opinião esse sentimento é partilhado por todo o grupo? É isso que os motiva a fazer este trabalho?
A: A maior parte, sim. E os que não vem com este espirito estão cá pouco tempo.

E: Em média, quantas pessoas são ajudadas pelo grupo “Nova Esperança”? A: Em média, à volta de quatrocentas pessoas. Cento e cinquenta famílias, por aí. Oscila porque de vez em quando saem umas quantas, depois entram, mas anda por aí.

E: E o grupo tem capacidade para dar resposta a novos pedidos de ajuda?
A: Tem. Tem tanta capacidade quanto mais comida nos derem. O grupo em si tem capacidade, o problema são os recursos…

E: O “Nova Esperança” é um grupo religioso. As portas estão abertas a todas as pessoas?
A: Todas! Atendemos aqui várias religiões. Até daquelas que nem olham para o senhor padre… [risos] Aí não há problema nenhum. Seja ateu, seja o que for. Aqui toda a gente tem entrada.

E: Quais são os tipos de doações que aceitam?
A: Todas. A parte das mobílias é um pouco mais complicado para nós. Não é que não faça falta, mas não temos espaço para as guardar. Temos uma lista do que as pessoas necessitam, e quando aparece alguém que tenha esse bem para dar, vamos à lista e vai logo direto. Aceitamos um pouco de tudo, mas principalmente bens alimentares. E roupas, também.

E: Quem pretende fazer doações como deve fazer?
A: Contactar-nos através do nosso e-mail, blog, telefone…

E: E para quem se pretende juntar ao grupo como voluntário?
A: É só vir cá. Bom, aqui há uma entrevista que se faz para perceber se realmente a pessoa quer mesmo ajudar, ou se é só porque é moda. Ou é só para dizer lá no café: “Olha, eu também faço voluntariado!”

E: Por último, pergunto se há alguma mensagem que queira transmitir aos nossos leitores? A: A mensagem que deixo é que façam a experiencia de ajudar o outro. Não digo que tenha de ser no “Nova Esperança”. Onde quer que seja. Façam isso, e olhem mais para o lado do que para dentro. Vão descobrir uma felicidade que se procura a todo o instante, e que não se descobre a olhar para dentro. Isto é a coisa mais importante da nossa vida: olharmos para fora. O mundo transformou-se de uma forma que parece que tudo o que não é em nosso proveito é desperdício mas, se fizermos ao contrário, ganhamos imenso. Ganhamos a nossa felicidade, que é isso que eu sinto. E essa é a melhor mensagem que posso deixar às pessoas para que sejam felizes.

E: É uma bela mensagem, sem dúvida! “A”, muito obrigada pelo tempo que nos dispensou. Em nome da equipa BXB-TV desejo o mais sucesso no trabalho futuro do grupo “Nova Esperança”. Até uma próxima oportunidade!  

Para mais informações acerca do grupo “Nova Esperança” aconselhamos a visita ao site www.novaesperancagaf.blogspot.com.

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